Portugal é um dos países europeus com maior percentagem de população com excesso de peso e/ou obesa. Um dos últimos estudos nacionais realizado no ano letivo 2016/17 indica que 28,5% das crianças entre os 2 e os 10 anos têm sobrepeso, das quais 12,7% são obesas (APCOI – Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil). Tal como na obesidade em idade adulta, a obesidade infantil está ligada à alteração dos padrões de comportamento alimentar (sendo que as crianças seguem a dieta preconizada pelos seus pais), com consumo de alimentos nutricionalmente pobres e hiper-calóricos (ricos em gordura, açúcares simples e sal) em detrimento de vegetais, legumes e frutas frescos e cereais completos (alimentos tipicamente associados à dieta mediterrânica) e ao reduzido índice de atividade física, ou por outras palavras, ao sedentarismo.

A obesidade é a doença em que a acumulação excessiva de gordura corporal atinge graus capazes de afetar a saúde e o bem-estar resultante de uma ingestão calórica superior às necessidades energéticas quotidianas. Trata-se de uma doença crónica complexaassociada a factores metabólicos, genéticos, ambientais e sociais, que aumenta o risco de  esenvolvimento e/ou agravamento de outras patologias e problemas de saúde como hipertensão, doenças cardiovasculares, Diabetes mellitus tipo 2, dislipidemias, diversos tipos de cancro, infertilidade, lombalgias, dificuldades de mobilidade, apneia do sono, embolia pulmonar,… Em razão da sua elevada prevalência e crescente incidência e também pelo facto de ser a segunda causa de morte prevenível no mundo, a obesidade foi considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a epidemia do século XXI.

Assim, esta foi a principal razão que levou a Farmácia do Calendário a implementar um projeto comunitário que pretende vincular jovens e crianças a comportamentos alimentares adequados. De acordo com Alexandra Esteves, Diretora Técnica da Farmácia do Calendário, “é objetivo desta intervenção comunitária através deste projeto [a que se atrbuiui a designação] “phuturo saudável” implementar um programa multidisciplinar de acompanhamento e monitorização das crianças obesas, ou com excesso de peso, e respetivas famílias.”

Alexandra Esteves considera ainda que “entre os grupos populacionais mais acometidos pela obesidade e excesso de peso” se encontram precisamente “as crianças e jovens. Esta realidade é preocupante por se relacionar com o aparecimento de doenças e problemas físicos diversos, mas também outros de natureza psicológica (como bullying, baixa auto-estima, fraco rendimento escolar, isolamento e maior propensão para o desenvolvimento de depressão ou outras patologias psicológicas) desde a infância. Estes tipo de problemas “diminuem a  expectativa e qualidade de vida das crianças e jovens afetados pelo problema, bem como acabam por representar um problema de Saúde Pública, com respectivo aumento dos encargos financeiros dos sistemas de saúde.”

Ao longo da implementação do projeto, “a Farmácia do Calendário  efetuará o acompanhamento das crianças e jovens envolvidos no projeto” através da sua equipa, contituída por nutricionista e farmacêuticos, “mediante a avaliação de vários parâmetros, divididos por uma média de três acompanhamentos por mês (presenciais na Farmácia). Os profissionais de saúde diretamente envolvidos no presente estudo e no seguimento das crianças são a própria Dr.ª Alexandra Esteves, diretora-técnica, a Dr.ª Marta Pinto, farmacêutica-adjunta, o Dr. Pedro Monteiro, farmacêutico, e a Dr.ª Ana Pedro, nutricionista da referida farmácia. Desta forma se cumprirá outro dos objetivos deste programa, “aliar os conhecimentos técnico-científicos dos diversos profissionais de saúde envolvidos, por forma a obter sinergias e aumentar a adesão ao programa proposto. Por esse mesmo motivo, será disponibilizada uma linha de comunicação (via telefónica e e-mail) totalmente disponível para que os pais possam esclarecer eventuais dúvidas junto da equipa de farmacêuticos.”

“A farmácia comunitária, pela sua grande proximidade e relação de confiança existente com a população”, acrescenta ainda a farmacêutica, “surge como um espaço de saúde privilegiado para abordar e reconhecer a importância desta problemática, devendo também promover e incentivar a prática de hábitos de vida saudáveis (controlo de peso, alimentação equilibrada e exercício físico), que previnam e corrijam a atual realidade. É neste contexto que surge o presente projeto – phuturo saudável.

Alexandra Esteves explica ainda que “o programa intervirá junto das crianças e jovens de forma multidisciplinar” sendo realizado o acompanhamento e monitorização das crianças obesas e/ou com excesso de peso e respetivas famílias na Farmácia do Calendário, avaliando-se posteriormente o sucesso da introdução de medidas de reeducação dos hábitos e comportamentos alimentares e promoção de hábitos de vida saudável.” O projeto phuturo saudável tem como população-alvo um grupo de 20 crianças e adolescentes entre os 5 e 14 anos de idade devidamente referenciadas pelo profissional clínico como tendo peso excessivo e decorrerá durante um período de seis meses.

De acordo com a responsável técnica da Farmácia do Calendário, Alexandra Esteves, “a monitorização das crianças será efetuada através de parâmetros antropométricos “clássicos”, como o peso, altura, Índice de Massa Corporal (IMC) de Quetelet e Tabelas de Percentis. Também vão ser utilizados outros dados obtidos através da análise de impedância bioelétrica (balança InBody 270) – valor da resistência (Ω) oferecida pelo corpo à passagem de corrente com diferentes frequências (Hz), como a Composição Corporal (análise quantitativa do teor de água, minerais, gordura e proteína), a Relação Massa Muscular-Massa Gorda, Percentagem de Massa Gorda (PMG), entre outros.

O phuturo saudável parte de um acompanhamento nutricional. Este “consistirá de uma avaliação inicial, na qual serão determinados os parâmetros antropométricos “basais” e elaborado um plano alimentar de acordo com as necessidades nutricionais de cada criança. Posteriormente será realizada uma consulta mensal de avaliação, com repetição das medições e introdução de medidas de correção e reeducação dos hábitos alimentares inadequados.

Em relação ao acompanhamento farmacêutico, Alexandra Esteves indica que a Farmácia do Calendário o realizará “em articulação com o seguimento nutricional, quinzenalmente. Aos farmacêuticos caberá incentivar e auxiliar as crianças participantes na adoção do “novo” regime alimentar, com dinâmicas pedagógicas que lhes permitam ampliar o conhecimento sobre nutrição e saúde, bem como influenciar de modo positivo a dieta, a atividade física e a redução da inatividade; e alertar os familiares para aspetos do quotidiano associados às escolhas alimentares, como, por exemplo a interpretar corretamente a informação contida na rotulagem dos alimentos e a desenvolver a capacidade de os classificar como saudáveis ou não.

Para integrarem o projeto, “os responsáveis legais das crianças, [em geral, os pais], concordaram em participar, de forma totalmente gratuita, no estudo e autorizaram a utilização dos dados recolhidos meramente para efeitos de avaliação do sucesso da intervenção, salvaguardando sempre a identidade das crianças.”

.

Em jeito de conclusão Alexandra Esteves refere ainda que se pretende desta forma “associar a farmácia a um espaço de promoção de saúde e bem-estar, ao invés de estar associada à enfermidade. Esperamos, assim, que este projeto seja uma mais valia e um exemplo de uma intervenção positiva da farmácia comunitária na comunidade onde se insere, podendo complementar as intervenções feitas já por outros profissionais ao nível de hospitais, centros de saúde e escolas.”

in vilanovaonline.pt em 27 de maio de 2018